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História da moda
A MODA ITALIANA ANTES DE MILÃO:
percorra a longa história da moda italiana fora da contemporânea Milão.

por Rita Andrade*

Durante o mês de julho fiz uma viagem de estudos para a Itália. Passei três semanas numa pequena cidade da Toscana, a 20 Km de Florença. Prato é uma das cidades mais importantes para a indústria têxtil italiana ao lado de Como, que fica mais ao norte perto de Milão, na Lombardia. O Museo del Tessuto de Prato, onde estagiei naquelas semanas, representa bem a importância internacional da indústria têxtil toscana. O museu possui coleções raras de fragmentos têxteis da família Médici, tecidos e paramentos medievais e renascentistas, além de uma extensa coleção de livros têxteis comerciais dos séculos XIX e XX, que contém amostras de tecidos e dados técnicos de manufatura. Um aspecto importante das atividades do museu é sua estreita relação com a indústria regional: o museu armazena e expõe as últimas coleções de tecidos lisos e estampados das grandes empresas da cidade e arredores.

Minhas atividades como estagiária aconteceram sob a supervisão da curadora do museu, Dra Daniella Degl'Innocenti, especialista em tecidos medievais e renascentistas. Além do privilégio de aprender um pouco com esta jovem brilhante sobre design e manufatura de tecidos nos séculos XV, XVI e XVII, eu realizei dois trabalhos de pesquisa pessoais. Estudei uma pequena coleção de amostras de tecido de uma tecelagem dos anos 60 chamada Rita Rossi e fiz um outro estudo comparativo com três hábitos femininos do final do século XIX. As amostras de tecido da década de 60 são emblemáticas da produção têxtil de Prato porque demonstram a influência e até mesmo a cópia fiel das coleções francesas de Dior, Chanel, entre outros. Já os vestidos do final do século XIX são evidências materiais de como o preto do luto se transformou em moda de noite quase na virada do século.

A Itália que não é Milão

A Itália para um pesquisador ou historiador de moda sempre teve um fascínio. Esse fascínio não acontece só porque Milão tem sido ao longo da história um grande centro de moda e nem por causa da atmosfera latina tão presente nos vicos e Pallazzos de toda cittá italiana. O que ainda atrai mais para aquele país os apaixonados por história é exatamente aquilo que não está tão claro, o que está mais escondido. Descobrir e visitar essas jóias italianas que são os museus especializados é bastante excitante. Um contraste em relação ao que acontece na Inglaterra, por exemplo, onde a informação é fácil, rápida e disponível. A Itália ainda nos dá o prazeroso sabor da descoberta, da exploração de culturas regionais e de pequenos museus com acervos surpreendentes.

Vamos iniciar uma pequena viagem por algumas dessas jóias museais italianas, percorrendo um percurso que tive a oportunidade de fazer durante uma recente viagem de estudo à Itália.

Nossa visita começa pela Toscana, na cidade de Prato, que fica no nordeste da região, a uma pequena distância de 20 Km de Florença e próxima de outras importantes cidades das artes, como Pistoia, Lucca e Siena.

Prato é famosa pela sua indústria têxtil concentrada principalmente na produção de artigos de lã . Desde a Idade Média a cidade desempenha um papel importante no desenvolvimento social e econômico de toda a região próxima. As modernas fábricas de hoje concentram-se numa zona industrial da cidade. Além desse aspecto industrial, Prato oferece ainda uma variedade de atrações turísticas e artísticas. As construções medievais e renascentistas têm obras de arte de mestres como Paolo Uccello, Filippo e Filippino Lippi e Donatello.

O Centro para Arte Contemnporânea 'Luigi Pecci' que fica no subúrbio pratese é um importante ponto de referência para a vanguarda artística do mundo inteiro. Os arredores de Prato estão cheios de pontos turísticos de grande interesse como necrópoles e ruínas etruscas (em Comeana e Artimino), igrejas Romanescas (em Carmignano) e as esplêndidas villas "Ambra" e "Fernanda, dos Médici.

Um dos pontos mais importantes da cidade é o Museo Del Tessuto de Prato, o único museu especializado em tecidos na Itália. O museu é devotado à arte e à tecnologia da indústria têxtil e é a expressão da história da produção têxtil da cidade com uma coleção de fragmentos e amostras de tecido que datam do século V até hoje.

HISTÓRIA, COMÉRCIO E PRODUÇÃO TÊXTIL: A INFLUÊNCIA DE FRANCESCO DATINI EM PRATO (1335?-1410)

Os negócios envolvendo a produção e a comercialização de tecidos em Prato se desenvolveram graças às condições ideais da cidade: o complexo sistema de canais que drenavam água do rio Bisenzio oferecia energia hidráulica para os diferentes processos de produção, o moinho em Galceti permitia acumular e esquadrinhar os tufos de lã de ovelha das montanhas vizinhas; a posição geográfica de Prato a colocou exatamente no centro de um importante sistema de estradas que facilitavam o comércio. Além disso, as habilidades dos prateses, que foram aprendidas desde os mais antigos habitantes da região, contribuiu consideravelmente para o desenvolvimento de sua produção e do comércio têxtil.

Um herói dessa história têxtil de Prato, conhecido por toda a Europa, era Francesco Datini (1335?-1410). Sua atividade foi decisiva para o desenvolvimento econômico de Prato. Estabelecendo filiais em várias cidades pela Itália, ao sul e no centro da Europa, ele criou um network comercial nunca visto antes, e através do qual a mais fina lã, corantes e outros produtos usados na produção têxtil chegavam a Prato enquanto que tecidos acabados e produtos semi-acabados partiam de Prato para mercados em outras cidades na Itália e na Europa mediterrânea.

Datini, como ainda hoje á conhecido na cidade, também produzia tecido além de ser comerciante, banqueiro e segurador. Foi ele quem inventou a carta de crédito para pagamentos feitos pelos bancos em países diferentes, e ele aplicou métodos inovadores de contabilidade na complexa administração de suas diversas filiais que foram tão eficazes que ainda hoje são estudados pela História econômica. Foi também, como alguns de seus contemporâneos, um patrono das artes e deixou em testamento sua fortuna para 'o povo de Prato'. A imagem de Datini ainda é presente na história da cidade, e no coração de Prato existem um monumento em mármore Carrara de Datini além de um charmoso café com seu nome onde os jovens se encontram a qualquer hora do dia.

Dos tempos de Datini até o século XVI, Prato passou por transformações na produção têxtil relacionadas principalmente a disputas econômicas e políticas com a rica Florença. Uma lei rigorosa decretada pelos Médici para proteger a decadente produção dos engenhos de lã florentina, permitiu aos tecelões de Prato apenas produzir tecidos mais rústicos, de baixo valor de mercado. Com isso, toda a produção de Prato ficou prejudicada e os fabricantes têxteis foram forçados a procurar novos mercados e clientes. Parecia um momento desastroso para a indústria de lã de Prato, mas gradativamente os fabricantes e comerciantes da cidade reverteram a situação a seu favor e as vendas voltaram a crescer, enquanto que a indústria de lã de Florença desaparecia.

O lado positivo desse episódio desastroso na história da cidade é a característica preeminente da sua indústria têxtil atual: os empreendedores de Prato aprenderam a adaptar sua produção rapidamente em face às novas demandas de mercado. Esse aprendizado mostrou-se fundamental para a sobrevivência da indústria têxtil de Prato durante os tumultuados anos 70 e 80 do século XX.

Durante a Revolução Industrial iniciada no século XVIII e continuada no século XIX, um novo maquinário foi desenvolvido por Giovan Battista Mazzoni que, aos moldes das máquinas inglesas, modernizou a produção têxtil em Prato. Foi o começo do grande desenvolvimento industrial da cidade.

No começo do século XX, Prato aprimorou sua estrutura econômica e social, influenciando o crescimento da indústria têxtil até a década de 60. Em 1934, por exemplo, a cidade ganhou uma linha ferroviária, facilitando o intercâmbio de mercadorias e de profissionais. Durante a Segunda Guerra Mundial, tanto a cidade quanto suas indústrias foram severamente prejudicadas . Devido à força da democracia restaurada com a ajuda de recursos americanos através do Plano Marshall que veio depois da guerra, a cidade foi rapidamente reparada. As condições do mercado para produtos têxteis era muito favorável e a expansão industrial que se seguiu levou a Prato muitos imigrantes que vinham de outras partes da Itália.

Durante a década de 1970, a produção têxtil local começou a se diversificar e abriu novos mercados, especialmente no que concerne à qualidade e à variedade de fibras de excelente padrão.

Em apenas 40 anos a população da cidade dobrou e hoje conta com 170.000 habitantes. Em 1992 Prato tornou-se uma Província, o que dá a ela mais autonomia política e administrativa, motivando a conscientização cultural pelos seus cidadãos e impulsionando o design tanto quanto a produção de tecidos.

O Museu do Tecido em Prato e seu papel na cultura têxtil da cidade

O primeiro núcleo do Museu do Tecido em Prato foi constituído em 1975 com o apoio da Sopritendenza per i Beni Artistici e Storici di Firenze, Pistoia e Prato garças a uma doação da coleção particular de Loriano Bertini ao Instituto Técnico Industrial "Túlio Buzzi". O Instituto Buzzi, como é ainda hoje conhecido, exerce um papel determinante no desenvolvimento têxtil em termos de design e tecnologia na atual Prato. Desde a sua fundação, o museu vem recebendo doações de ex-alunos Buzzi, que implementaram o acervo do museu que hoje tem importância internacional.

Em 1994 o museu ganha uma associação independente do Instituto Buzzi que tem como função organizar e facilitar o acesso às coleções. Com esta nova associação acontece também a formação do futuro das coleções e da filosofia do museu, que agora tem uma relação mais estreita com a indústria têxtil da região. Os fundadores sócios da nova Associazione Museo Del Tessuto são formados pela associação das indústrias e do comércio da cidade com a participação da prefeitura e do departamento de promoção turística além do apoio do banco local (Cassa di Risparmio di Prato), dos sindicatos e do próprio Instituto Buzzi. Os diversos interesses dessa associação, com representantes que atuam diretamente na vida política-econômica e social da cidade, influenciam a vida do museu com isso ajudando a moldar a história têxtil que nós conhecemos e também aquela que se conhecerá no futuro.

Coleções do museu.

Museo Del Tessuto di Prato
Piazza del Comune, 591000 Prato
Tel. E Fax: (00xx39) 574-611503
E-mail: museodeltessuto@mbox.comune.prato.it
www.comune.prato.it/tlm/musei

Rita Andrade é formada em Moda pela Universidade Anhembi Morumbi e concluiu mestrado em História dos Tecidos e da Roupa pela Universidade de Southampton, na Inglaterra. Teve uma rápida experiência em desenvolvimento de produtos na área de confecção feminina, infantil e têxtil antes de iniciar seu caminho na área de pesquisa histórica da moda. Fez estágio em museus com importantes acervos têxteis como o Museu Paulista em São Paulo e o Victoria & Albert Museum, em Londres. Como docente, deu palestras sobre sua pesquisa de mestrado - a maison francesa Louise Boulanger - no Fashion Institute of Technology em Nova Iorque e no Núcleo de Estudos da Moda na USP. Hoje, é parte do corpo docente das Faculdades Metropolitanas Unidas - FMU - em São Paulo.

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