Glossario de moda

Yves Henri Donat Mathieu Saint nasceu em Orã, na Argélia, norte da África, e aos 17 anos já em Paris, na França, onde estudava, venceu um concurso promovido pelo International Wool Secretariat, apresentando um vestido de coquetel, um ‘pretinho’.
Christian Dior, no começo da década de 50, o contratou.

Em pouco tempo, Saint Laurent tornou-se o principal assistente de Dior, e quando este morreu, em 1957, coube a Yves assumir a direção de uma das maisons mais importantes do mundo - Saint Laurent estava com 21 anos, e foi então que conheceu aquele que viria a ser seu companheiro de vida inteira, Pierre Bergé.

Em 1959, Saint Laurent criou sua primeira polêmica, ao colocar na clássica passarela de Dior a linha batizada como Trapézio, apropriada para jovens, com seus ombros estreitos, corpete justo e saia evasê. Em 1959, recriou a saia entravada de Paul Poiret, em uma versão mais curta. Nas coleções seguintes, colocou em cena jaquetas de couro preto, suéteres de gola rolê e saias debruadas com pele na barra.

Porém foi convocado para lutar na guerra da Argélia, em 1960, o estilista trocou o ateliê pelo campo de batalha. Um ano mais tarde, ao ser dispensado por motivo de saúde, ele voltou a Paris e encontrou o estilista Marc Bohan ocupando seu posto na casa Dior.

Decidiu, então, que era hora de começar sua carreira independente, e com o amigo Bergé vai a campo, em 1962.

Em 1968, quase trinta anos antes de as transparências entrarem na ordem do dia, o estilista liberava os seios femininos sob blusas transparentes, ligeiramente camuflados por bolsos ou estampas, ao mesmo tempo em que lançava outro clássico, a saharienne. Em 1969, mais uma revolução, com os ternos para mulheres, ou terninhos, como ficaram conhecidos em todo o mundo - e, certamente, as mulheres devem a Saint Laurent o fato de, hoje em dia, a calça comprida fazer parte com naturalidade de seu guarda-roupa.

Mas 1971 guardava uma surpresa ainda maior: o blazer feminino, peça do vestuário que, desde então, jamais saiu de moda, com seus ombros impecáveis, avidamente adotados pelas mulheres que, na década de 70, começavam sua escalada profissional no mundo dos negócios. Ao mesmo tempo, porém, Saint Laurent não esquecia o traço de feminilidade essencial de sua moda, e em 1976 colocava na passarela uma deslumbrante coleção inspirada em trajes típicos russos - suas saias longas e rodadas, usadas com botas, logo estavam em todas as vitrines, e seus lenços e xales entraram em evidência para ficar.

Anos 80, anos 90, e a mística de Saint Laurent continuou intacta. Se suas peças de alta costura atingiam preços astronômicos, o sonho de ter algo com as mágicas iniciais YSL corporificava-se em linhas de prêt-à-porter, roupas masculinas, maquiagem, cosméticos para tratamento de pele, perfumes.

Tudo rodava o planeta e fazia da marca um prodígio de faturamento
Apesar desses novos rumos, porém, ele continuou a se isolar cada vez mais, e a pensar em deixar seu trabalho.

Enquanto a maioria dos estilistas se cerca de todos os cuidados para não comprometer a própria imagem, e a imagem de suas criações, Saint Laurent jamais se constrangeu ao assinar as roupas que a atriz e amiga Catherine Deneuve usou em seu papel de prostituta no filme A Bela da Tarde - e até fechou um dos vestidos com velcro, para que o ruído da roupa sendo aberta com violência desse mais força a uma cena de estupro.

Ele foi o primeiro, ainda, a colocar seus desfiles em vídeo, e em tempos de comunicação cada vez mais acelerada, e enquanto o estilista Karl Lagerfeld, da casa Chanel, esbravejava contra a velocidade com que suas criações poderiam ser copiadas, Saint Laurent fez questão de mostrar tudo, consentidamente ao vivo, via Internet.

Ao mesmo tempo em que a polícia batia à sua porta, atrás de drogas, ele batizou um de seus perfumes de Opium. Enfrentando as leis francesas, que só permitem a utilização da designação champagne para a bebida elaborada exatamente na região do país que leva esse nome, chamou de Champagne outro de seus perfumes, e só depois de muitas batalhas judiciais - e muita publicidade gratuita, é claro, pois o caso não saiu dos jornais franceses da época - rebatizou-o como Yvresse, o Y de seu nome na palavra ivresse, mantendo o significado no terreno da alegria provocada por uma bebida. Mais ainda: duas décadas antes de Luciano Benetton ter causado agitação na cena fashion ao aparecer nu em anúncio de sua marca, Saint Laurent já posara despido para lançar o perfume Rive Gauche.

Aparecendo em público cada vez menos, sempre com um rosto amargo e torturado, refugiando-se em sua casa em Paris ou em seu palácio no Marrocos, ele começou a dar margem a comentários cada vez mais fortes de que iria se aposentar. O amigo Bergé dizia, então, que se isso acontecesse, seria o fim da legenda e da grife YSL: “Não há futuro para uma maison sem ele”. afirmava, pois gênio, para Bergé, sempre teve um nome, o de Yves Saint Laurent.

Afinal, a decisão tantas vezes anunciada chegou. Primeiro, no começo do mês de janeiro de 2002, em que num discurso emocionado Saint Laurent declarou: “Digo a mim mesmo que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, que participei da transformação de minha época”. Ele terminou sua fala afirmando: “Marcel Proust me ensinou que a magnífica família dos nervosos é o sal da terra. Sem saber, eu fiz parte dessa família. É a minha. Eu não escolhi essa linha fatal, contudo foi graças a ela que eu me elevei ao céu da criação, que eu me achei, que eu compreendi que o encontro mais importante da minha vida deveria ser comigo mesmo”.

O ato final aconteceria na noite gelada do inverno parisiente de 22 de janeiro do mesmo ano. Dois mil convidados, vindos do mundo todo, não se importaram em fazer fila diante do Centre Georges Pompidou, e passar por uma revista rigorosa, antes de entrar. Ali estavam aqueles que sempre freqüentaram as listas vips dos grandes acontecimentos do planeta e, em comum, todos tinham alguma ligação - amigos, clientes, companheiros de profissão - com o principal personagem da celebração, o estilista Yves Saint Laurent.

Mais uma vez, ele mostraria suas criações. Só que não se tratava apenas de mais um destile - seria o último: com os negócios da marca sob o comando de um super conglomerado financeiro dirigido por François Pinot, e tendo o estilista Tom Ford como comandante-em-chefe de tudo, Bergé decretara o fim da Maison da Rue Marceau, nº 5, de onde saíam as criações de alta costura.

Antes de sair definitivamente de cena, porém, Yves Saint Laurent surgiu mais uma vez entre um estrelado elenco de modelos que juntou, entre outras, Claudia Schiffer, Jerry Hall, Iman e Naomi Campbell, ao som da canção Ma plus belle histoire d’amour c’est vous, cantada por Catherine Deneuve. A moda virava, então, uma de suas páginas mais importantes.
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